quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Qual a palavra ?

Nas estradas mais antigas,
trilhas, atalhos,
nas montanhas altas, escarpadas,
nas vilas, nas cidades,

nos oceanos, cachoeiras,
em todos os rios
e fios de água,

em todas as ruas
e becos,
nos  recantos escuros
e claros,

em cada pedaço de mundo grande ou pequeno,

uma palavra estandarte
costura os homens na Terra,
inventa a vida.

Nos gestos de todo dia,
na mesa posta, no olhar,
no sorriso, na carícia,
uma palavra vem antes de todas,
é a chave da lua e do sol.

Lua perdida
nos quatro cantos
do mundo,
assombrando os sonhos.

Às vezes adormecida
no rastro vermelho
do sol.

Uma palavra é argila,
trigo e floresta.
É água macia
de lavar as mãos
e os corações.
Fio primeiro de todos os panos
nessa palavra as palavras se banham.

Essa palavra tão pequena
e grande,
pássaro palpitante,
palavra viva em carne viva.

Palavra de mudar o mundo,
de fazer pão e telhado,
de abrir os cadeados,

as porteiras trancadas
do universo,
as águas azuis
que dormem no fundo
de cada homem.

Palavra escrita na palma
da mão de cada gente,
junto com as misteriosas
linhas da vida.
Junto com a trama
secreta
do destino.

É preciso soletrar
suas letras,
soprar bem alto
seu nome sonoro,
como poeira mágica,
como pólen, seiva
ou luz.

Nas chamas do dia,
nos ventos da noite,
pelos mares, oceanos,
desdobrar sua magia,

como se desdobram
as velas guardadas
de um barco.

Por todos os vales,
riachos, montanhas,
acordar seu nome,
soar seu nome,
soar seus sinos,
espalhar seu brilho.

Acordar seu nome
como o sol
acorda seus pássaros
e a noite os seus mistérios.

Para que os homens
de todas as terras,
de todas as línguas,
de todas as cores,
se todos os povos,

para que todos os homens
dancem junto com a terra
a dança silenciosa dos astros.

A dança secreta
dos astros,
desde sempre dançada,
infinitamente.

E para que a Terra possa
continuar viva para sempre
sempre viva rodando para sempre,
rodando para sempre,
rodando para sempre.

Paz

Autor: Roseana Murray

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Céu

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

Autor: Manuel Bandeira

A estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-la na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

Autor: Manuel Bandeira

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Autor: Cecília Meireles

Leilão de jardim

Quem me compra um jardim
com flores?

borboletas de muitas
cores,

lavadeiras e
passarinhos,

ovos verdes e azuis
nos ninhos?

Quem me compra este
caracol?

Quem me compra um raio
de sol?

Um lagarto entre o muro
e a hera,

uma estátua da
Primavera?

Quem me compra este
formigueiro?

E este sapo, que é
jardineiro?

E a cigarra e a sua
canção?

E o grilinho dentro
do chão?

(Este é o meu leilão)

Autor: Cecília Meireles

O Cavalinho Branco

À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:

mas há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado.

O cavalo sacode a crina
loura e comprida

e nas verdes ervas atira
sua branca vida.

Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos

a alegria de sentir livres
seus movimentos.

Trabalhou todo o dia tanto!
desde a madrugada!

Descansa entre as flores, cavalinho branco,
da crina dourada!

Autor: Cecília Meireles

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Pescaria

Cesto de peixes no chão.
Cheio de peixes, o mar.
Cheiro de peixe pelo ar.
E peixes no chão.

Chora a espuma pela areia,
na maré cheia.

As mãos do mar vêm e vão,
as mãos do mar pela areia
onde os peixes estão.

As mãos do mar vêm e vão,
em vão.
Não chegarão
aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia,
a espuma da maré cheia.

Autor: Cecília Meireles

sábado, 6 de outubro de 2012

Canto de Natal

O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer o bem

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino

Autor: Manuel Bandeira

A bailarina


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
 
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
 
Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.
 
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
 
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
 
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
 
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
 
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças